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No meu reino

Episódios de uma família como tantas outras

No meu reino

Episódios de uma família como tantas outras

O primeiro trimestre da minha gravidez...a continuação

O descolamento da placenta atirou-me para a cama, com autorização para me levantar apenas para ir ao wc. Estava perfeitamente consciente do que me esperava. Do meu primeiro filho estive deitada até aos 4 meses de gestação. Conhecia já o pânico que uma mãe sente de perder o seu bebé. Chamava pelo nome as dores físicas e emocionais que atravessaria. Estava consciente da minha impotência. Teria de reviver todas essas emoções, que me roubariam a possibilidade de viver, verdadeiramente, a minha gravidez, pelo menos com a felicidade merecida. Procurei não ser melodramática, mas foi uma dura prova à minha resistência emocional.

 Recordo que ter de parar de trabalhar foi difícil para mim. Tinha começado um novo projeto profissional há 3 meses...o emprego pelo qual lutei estoicamente nos últimos anos da minha vida. Estava realizada, tinha encontrado o meu norte e visto o meu esforço e o investimento que fiz na minha formação académica recompensados. Nada se compara, porém, a um filho. Pagaria de novo esse preço, sem qualquer hesitação. Acredito que voltarei a ter outras oportunidades profissionais. Acredito também que nada me preencherá mais do que a família que estou a construir...porque a minha família é o meu maior projeto.

Voltando ao meu relato, os primeiros dias de repouso foram excruciantes. Tive dores horríveis nas costas, não conseguia encontrar uma posição minimamente cómoda e chegava a acordar de madrugada a agoniar. Precisava de ajuda para me levantar, não era capaz de andar numa posição reta, só andava amparada ou agarrada a uma parede. Assemelhava-me a uma velhinha de 80 anos. A hiperemese de que padeci também não ajudou nada. Não suportava odor algum, enjoei o detergente da roupa, o desodorizante, o meu perfume, a pasta de dentes, etc. etc. Sempre que me levantava sentia o espasmo para vomitar e cheguei a fazê-lo várias vezes. Tolerava pouco a comida. Resumindo, sentia-me um caco e estava completamente desfigurada.

Mas o tempo foi passando, as dores nas costas foram diminuindo e a placenta foi, lentamente, colando. Às 11 semanas colou totalmente e respirei de alívio, confesso. Acho que o nosso organismo é fantástico e adapta-se às circunstâncias mais improváveis. Mantive-me otimista e pensei que o pior teria passado. E foi com este espírito que completei as 12 semanas de gestação e o primeiro trimestre. E no final desse mesmo dia, em que celebramos esta conquista e os nossos medos se desprenderam, um novo susto trouxe-nos de novo à terra: hemorragias outra vez...