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No meu reino

Episódios de uma família como tantas outras

No meu reino

Episódios de uma família como tantas outras

Foi há um ano

Há um ano atrás dormi pouco. Acordei muito cedo, pelas 05h00 da manhã. O dia despertou enublado, prenúncio de esperança. Levantei-me cedo para ir ao cabeleireiro, como a circunstância exigia.Tinha ido ao cabeleireiro de véspera, mas decidi que era necessário um retoque. Afinal, era o primeiro dia de um percurso que, em teoria, mudaria a minha vida. Perguntavam-me se não estaria nervosa. Não estava. Estava estranhamente calma...e foi com este espírito que segui viagem.

A viagem decorreu serenamente. Quando cheguei ao auditório percebi como o espaço era assustador. Encontrei, por acaso, quem me levou até àquele momento. Comecei a sentir um friozinho na barriga, confesso. Subi ao palco. Estava irrequieta. Deambulava de um lado para o outro, sem conseguir parar. Tinha as pernas bambas. Pouco tempo depois chegaram os poucos convidados que quis ver presentes. Ligaram-se as luzes. Uma desconhecida abeirou-se de mim e perguntou-me se precisava de alguma coisa. Negativo. "Podemos então vestir a capa?" - perguntou-me.  Coisa tão desconfortável e dantescamente quente. Ruborizei de imediato. O suor caia-me pelas costas abaixo. Só tive tempo de respirar fundo e já entravam os 7 ilustres. Abriram-se as provas. Comecei a minha apresentação e os nervos imediatamente cessaram. Parecia que toda a vida tinha feito aquilo. Discursava com convicção e foi com convicção que durante 2h30 tive de defender a minha dama. Ao fim desse tempo, falou a minha mentora. Quis prestar testemunho sobre a minha coragem, a minha resiliência, a minha determinação. Comoveu-me muito. Por fim, evacuou-se a sala para deliberação. Estava tranquila, sabia que estava feito! Não demorou muito tempo até saber que tinha sido aprovada "com nota máxima e muitos adjetivos", confirmou o sr. presidente do júri. Era oficial: seria professora doutora a partir desse dia.

Há um ano atrás achei que a minha vida mudaria e, de certa forma, mudou. Hoje recordo esse dia como um momento de superação, de esforço desmesurado e quase irracional, de determinação convicta de que na vida não há impossíveis e tudo depende somente da nossa vontade. E foi uma maratona muito dura...ou melhor...uma corrida de obstáculos, que consegui cumprir. 

Hoje não poderia deixar de recordar essa data de 14 de outubro de 2014, um dia feliz. Sei que, para além de mim, nenhum dos presentes recordará este dia, com muita tristeza minha. Hoje, como naquele dia, não terei um presente, uma flor, um abraço sentido, uma palavra de orgulho, um jantar especial, uma razão para relembrar o momento. Porque só queria sentir-me especial naquele dia e receber, por uma só vez, um pouco daquilo que costumo dar de mim a quem me rodeia. Não deixarei, contudo, de, com toda a vaidade que me é merecida, de relembrar esse dia, ainda que num silêncio partilhado. Afinal, é uma data da minha vida, um momento ao qual me agarro sempre que a desmotivação me vence, que não me deixa esquecer que tenho em mim todos os sonhos do mundo...e que tenho de continuar a lutar por estes.