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No meu reino

Episódios de uma família como tantas outras

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Uma noite de S. João especial

 

Hoje é noite de S. João. Portuense que se preze não deixa de a comemorar, mesmo que não suporte o cheiro das sardinhas, como é o caso. Quando era mais jovem, ia para a baixa com os amigos e martelávamos até nos doerem as mãos. Andávamos quilómetros sem nos importar com as bolhas nos pés, que nem as velhinhas All Star conseguiam evitar. Percorríamos as festas dos bares de praia que povoam a nossa marginal até chegarmos à Foz. Fazíamos fogueiras na praia, que ladeávamos ao som de uns acordes de guitarra que sempre alguém fazia soar. Acabávamos a noite no areal da praia do Homem do Leme  e comíamos pão com chouriço e farturas até ao raiar da manhã. Era uma espécie de ritual que mantínhamos, tribalisticamente, ano após ano. Bons tempos, os da juventude...

Mas nenhuma noite de S. João se equiparou à de 1996, a mais épica de todos os tempos para mim. Estávamos juntos há dois meses. Quiseste conhecer a noite mais longa do Porto comigo e por mim. Para um lisboeta, a tradição das marteladas e do alho porro, o barulho das ruas, embrulhado com o odor dos petiscos, a par da pronúncia do norte embalada pelos arraiais populares que se ouvem por todo o lado ( e de muitos fod..., caralh..., etc), é no mínimo pitoresco ou...esquisito, como o definiste. Acompanhaste o meu bando, que era também o teu. Mantivemos a tradição de andar sem parar, de correr toda a marginal da Foz e as festas de praia. Foi bem melhor fazê-lo de mãos dadas contigo. Sorrias. Os teus amigos, que eram agora também meus, divertiam-se com tudo, porque tudo era diferente, tudo era genuíno e desigual. E no meio de muita diversão chegámos à nossa praia. Soava o "Give it away" dos Red Hot Chili Peppers. Sentamo-nos todos no areal e éramos muuuiitos. De costas para ti, abraçaste-me, entrelaçamos as nossas mãos e ficamos assim tempos infinitos, a olhar as ondas do mar até o despontar da madrugada. Num sussurro, disseste-me "amo-te" ao ouvido, ao som de "Aqui ao luar" dos Xutos. Foi a primeira vez que o disseste. 

Nessa noite percebi que tinha encontrado o amor da minha vida, o meu companheiro de viagem, o pai dos meus filhos, aquele com quem partilharia tudo neste planeta azul, que às vezes me parece preto e branco e que tu insistes em pintá-lo de rosa, só para me veres sorrir. E pensar que tudo começou verdadeiramente nessa noite de S. João. Tínhamos 18 anos e moravam em nós todos os sonhos do mundo.